O advogado Rafaell Câmara Roque de 36 anos foi sequestrado após ajuizar uma ação contra uma empresa comandada pelo suposto integrante da facção Wagner Rodrigues dos Santos. O objetivo do grupo era forçar o advogado a abandonar o processo e fornecer o endereço do cliente (e ex-sócio de Wagner) que ele representava.
O profissional explicou que entrou com a ação porque seus clientes teriam sido “expulsos” da empresa por Wagner, com quem tinham relação desde a infância. O suspeito teria prometido pagar um valor referente à parcela dos sócios para que eles deixassem o negócio, o que não aconteceu.
O advogado apontou que o empreendimento, em Guarujá (SP), era de interesse do grupo criminoso por ter 440 m² em área portuária, três barcos pesqueiros, duas câmaras frigoríficas, três máquinas de limpar camarão e uma de fabricar gelo.
O crime aconteceu em 11 de junho, na Vila Esperança, em Cubatão (SP). Rafaell contou que nunca havia conversado com o suspeito William Nascimento Boaventura (que acabou preso na operação policial), mas foi ao local após ele entrar em contato solicitando um serviço de advocacia. O objetivo da contratação seria tentar a liberação de outro suposto integrante do PCC que havia sido preso.
Rafaell foi mantido em cárcere das 19h à 1h da madrugada seguinte e, segundo ele, sofreu tortura psicológica durante o período. Cerca de 30 pessoas participaram do “tribunal do crime”, algumas delas por videochamada.
O “tribunal do crime” é uma forma de justiça paralela, imposta por facções criminosas para controlar territórios, impor disciplina e punir desvios de conduta, operando à margem da lei.
A operação ‘Patrocínio Fiel’ foi planejada com o objetivo de interromper a atuação criminosa dos investigados, identificados como integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), preservar a integridade da vítima e buscar provas para o avanço das investigações.
Apesar de ter cedido inicialmente à condição imposta pelos criminosos, Rafaell procurou o Ministério Público para denunciar o caso. A investigação foi assumida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Mesmo com o receio de sofrer represálias, o advogado decidiu tornar o caso público. “Aprendi com Martin Luther King que o problema do mundo não é o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons. Enquanto a gente não abre a boca, os ratos estão fazendo a festa”, afirmou.
O episódio abalou a saúde mental e a rotina de Rafaell, que passou a desconfiar de ligações de desconhecidos e viu pessoas próximas se afastarem por medo.
“Eu fiquei quinze dias sem dormir. Eu tenho medo, pânico às vezes. Meu psicológico ficou muito abalado […] Não sabia que eu ia perder tudo que eu perdi [após entrar com a ação]. Perdi a minha paz, a minha liberdade”, lamentou.
G1
